Luís de Camões e a Ilha dos Amores

No espaço arquitetónico do parque dos Poetas surge um lago com uma ilha e uma gruta, evocando o espaço descrito por Luís de Camões no episódio da Ilha dos Amores, no Canto IX de Os Lusíadas.

Baptista-Bastos a propósito das personagens da Ilha dos Amores, esculpidas por Francisco Simões, diz:

“J’appelle moral ce qui éveille”. Cito Thomas Mann para sublinhar, como ato moral que me desperta, que me concita, esta fase escultórica de Francisco Simões. (…) A construção pessoalíssima de um homem para o qual o reino deste mundo não é só dor e inferno, punição, soberba e morte. O que me desperta, o que me concita não é, apenas, a visão singular de um universo singular. É a arte narrativa que se desprende destas esculturas, é o combate diário que Francisco Simões estabeleceu com o anjo de pedra. E, no interior dessas pedras, contêm-se sombras, vultos, pessoas, criaturas. Mulheres. Mulheres que possuem muito mais de angélico do que de demoníaco. A sensualidade sexual dos corpos, os amores selados nas perspetivas, nas posições, nos ângulos multifários, nos olhares cavos e profundos, na beleza incomparável dos gestos inacabados. Há, nessa seleção de esculturas, algo que se manifesta (subtilmente, embora) como uma recuperação das firmes e delicadas figuras de mulher da renascença. Uma transfiguração alquímica, que não participa da desfiguração – exatamente porque transfigurar é conferir à arte o que nela o artista consegue como demiurgo. O direito à volúpia. O direito ao desejo. O direito ao prazer. O direito ao gozo. O direito à sedução. Olhemos, observemos, examinemos; todavia, sem interrogar. A ausência de atenção e de reflexão. Presença dos sentidos. O sensorial como linha-mestra de uma arte cada vez mais definidamente própria. O sensorial (porque não dizê-lo) a opor-se ao conceptual. Goethe afirmara que, antes de tudo, temos o dever de alimentar o nosso eu carnal. Uma sabedoria da carne que é apanágio de quem não nutre muito apreço pelos castos e pelos ascéticos.

Uma arte narrativa, dizia eu, a propósito desta fase escultórica de Francisco Simões. Desta fase que se constitui como uma almejada Ilha dos Amores, uma ilha que o escultor (tal como André Breton) sabe que existe lá, muito para lá do nosso horizonte visual. É onírico, o sonho desencadeado, o prazer desenvolto, o gosto e o gozo doados. Uma arte narrativa que, não sendo declamatória como toda a boa arte narrativa, se fixa nos limites da última fronteira. Quer-se dizer: Francisco Simões proporciona ao olhar coletivo as maiores margens dedutivas: oferece-nos a grande capacidade de, com ele ou através dele, embarcarmos na caravela da grande descoberta. Partir para uma ilha devagarosa e imponderável. Percorrê-la imaginando-a. Como se fora a garantia de um longuíssimo amor, selado numa remotíssima e fascinatória viagem. Isso: aventura, viagem. As cronologias dos destinos singulares e, afinal, tão comuns. Uma outra espécie de ilusão lírica que celebra a beleza secreta da mulher como uma divindade de agora e de aqui. Nunca como uma divindade do além.

Esta Ilha dos Amores é o prometimento da eternidade contida num instante supremo. A celebração e o hinário da vida. Em escultura, claro. Em volume e em movimento. Como quem vem anunciar o rompimento de uma alvorada.”

Fotografia da pétala de Luiz de Camões

Esquema da Ilha dos Amores

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