José Régio

Escritor multifacetado, utilizava o pseudónimo José Maria dos Reis Pereira.

Foi um escritor, poeta, dramaturgo, romancista, novelista, contista, ensaísta, cronista, crítico, autor de diário, memorialista, epistológrafo. Foi também desenhador, pintor, e grande conhecedor e colecionador de arte sacra e popular.
Nasceu em Vila do Conde e aí permaneceu até acabar o liceu.
Aos 18 anos foi para Coimbra onde concluiu a sua licenciatura em Filosofia Românica.Em 1927, José Régio inicia a sua carreira de professor, começando por lecionar Português e francês.
José Régio, manteve-se ativo politicamente, e foi fiel aos ideiais socialistas cristãos.
É considerado um dos grandes criadores da literatura portuguesa moderna. A sua obra, assenta maioritariamente nos problemas relativos ao conflito entre o Homem e Deus, o artista e a sociedade, o Eu e os outros.

Testamento do Poeta
Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, – hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!….
Basta-me o gesto de contar um verso.

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’

Francisco de Sá Miranda

Nasceu em Coimbra a 28 de agosto de 1481 e faleceu em 15 de março de 1558, na cidade de Amares.
Filho de Gonçalo Mendes e Inês de Melo, viveu em S. Salvador do Campo, freguesia portuguesa de Barcelos e em Coimbra.

Estudou Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou também a Universidade de Lisboa, onde acabou por se formar doutor em Direito.
Além de lecionar, compunha cantigas, vilancetes e esparsas.

Sá de Miranda, viajou por Itália e lá conheceu o ambiente literário do Renascimento. Acabou por adicionar os elementos dessa escola literária aos seus textos, criando uma nova estética de sonetos, sextina, canção, tercetos, oitavas e versos com dez sílabas.

Sá de Miranda é considerado um dos poetas portugueses mais marcantes da literatura nacional.

Comigo me desavim
“Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda, in ‘Antologia Poética’

Florbela Espanca

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa em 1894.
Teve uma vida repleta de sofrimento e de lutas interiores e por isso suicida-se aos 36 anos.
A morte prematura da mãe, vários casamentos falhados e não conseguir ter filhos, foram aspetos determinantes no curso da sua vida e da sua personalidade triste e depressiva.
Considerada uma mulher à frente do seu tempo, vai buscar às suas inquietações e experiências pessoais, inspiração para a sua obra poética em que os temas mais abordados são a solidão, a tristeza, a saudade, a sedução, o desejo e a morte.

De Joelhos
“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer…
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver…

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

Mário de Sá Carneiro

Ao comemorar-se o centenário da morte de Mário de Sá Carneiro (Maio de 1890 / Abril de 1916), não podemos deixar de lembrar a sua vida e obra, destacando-o como Poeta do Mês.
Poeta, contista e ficcionista português, foi um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu – juntamente com Fernando Pessoa e Almada Negreiros – escandalizando a sociedade burguesa e urbana da época.
De natureza instável, onde predomina um sentimento de solidão, de abandono e de frustração, nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se ao mundo e à vida prática.
Verdadeiro insatisfeito e inconformista, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hotel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris.
Numa «carta de despedida» para Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro revela as suas razões para se suicidar:

Paris – 31 Março 1916

“Meu Querido Amigo.
A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas “cartas de despedida”… Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui… Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro. [...]
Mário de Sá-Carneiro”

Como viria, mais tarde, a escrever Fernando Pessoa, seu grande amigo e confidente, “Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida”.

D. Dinis

(1261-1325)
Foi rei de Portugal entre 1279 e 1325.
Ficou conhecido com os cognomes “O Lavrador”, pelo forte impulso que deu à agricultura e pela plantação do pinhal de Leiria e “Rei-Poeta” devido à sua obra literária.
Contribuiu ativamente para o desenvolvimento da poesia trovadoresca, deixando um legado significativo de Cantigas de Amor, de Amigo e de Maldizer publicadas nos Cancioneiros Galaico-Portugueses.
Como poeta, D. Dinis é, entre os trovadores dos Cancioneiros, o que melhor representa a poesia trovadoresca.

No Parque dos Poetas, D. Dinis foi representado pela escultora Graça Costa Cabral.
Nascida em São Miguel, nos Açores, em 1939, tirou o curso de Escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi fundadora do Ar.Co. (Associação cultural sem fins lucrativos) e ao longo de mais de 40 anos acompanhou o centro de artes como professora, responsável por setores de formação, e presidente da direção.
Faleceu em janeiro de 2016.

Bocage

Há 250 anos, precisamente a 15 de setembro de 1765, nascia em Setúbal, o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, ou simplesmente “Bocage”.
É considerado como um dos nossos melhores poetas, e depois de Camões o mais popular e celebrado de todos.
A poesia de Bocage, é uma poesia satírica, irreverente e classicista.
A sua poesia teve forte presença na literatura portuguesa do século XIX.
Bocage, tinha um espírito livre, rebelde e contestatário. Gostava de tudo o que era grande e belo. Passando pelo erotismo e pelo brejeiro, pela crítica construtiva ao escárnio, Bocage escreveu até à morte. Escreveu um pouco de tudo, tendo sido durante a sua vida censurado e por isso viu muitos dos seus versos cortados, alterados ou simplesmente omitidos.

Para celebrar os 250 anos da data do seu nascimento, nada melhor do que lembrar Bocage, com o seu autorretrato.

(AUTORRETRATO)
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage

Manuel Alegre

Nesta nossa rubrica intitulada ‘Poeta do Mês”, vamos destacar Manuel Alegre.
Esta dedicação especial, é feita ao homem que para além do reconhecimento como político e intelectual é apontado por muitos como o maior poeta vivo português.
Manuel Alegre de Melo Duarte, nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936.
Nesta cidade, fez a instrução primária e mais tarde, concluiu na cidade do Porto os estudos secundários.
Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1956, onde cedo se tornou dirigente estudantil e onde também se formou em Direito.
Em 1962, foi mobilizado para Angola e em 1962, foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Em 1964 partiu para o exílio e por lá acabou por ficar 10 anos.
Foi deputado por Coimbra em todas as eleições de 1975 a 2002 e por Lisboa a partir de 2002. Em 2004 foi candidato a Secretario Geral do Partido Socialista (PS) e em 2006, concorreu à presidência da República, como candidato independente. Em 2009 dá como terminado o último mandato como deputado à Assembleia da República, após trinta e quatro anos de Parlamento e em 2010, anuncia a sua candidatura às eleições presidenciais de 2011.
Apesar da sua vida política muito ativa, Manuel Alegre nunca abandonou a literatura, tendo uma vasta obra publicada e tendo recebido inúmeros prémios de reconhecimento.
Muitos dos seus poemas foram musicados e interpretados por ilustres cantores como Zeca Afonso ou Adriano de Oliveira.
Meritório na escrita, também é mestre em declamar, para tal Manuel Alegre alia uma forma única e apaixonada de interpretação a uma voz singular e majestosa.
Aqui vos deixamos, Manuel Alegre a declamar a sua própria poesia - “Trova Ao Vento Que Passa”, acompanhado à guitarra por outro símbolo da cultura portuguesa, Carlos Paredes.

Cesário Verde

Em julho, celebramos Cesário Verde – o poeta que viveu em Linda-a-Pastora.
José Joaquim Cesário Verde, nasceu em Lisboa a 25 de fevereiro de 1855.
Passou parte da sua infância, numa quinta no Jamor “Quinta de São Domingos”.
Esta propriedade da família Verde, constituía uma excelente exploração agrícola, passando a ser fonte de negócios da família e levando o jovem Cesário Verde a dedicar-se com empenho e dedicação às atividades agrícolas.
Desde muito cedo que a sua vocação para as letras se manifestou, levando-o a ingressar no Curso Superior de Letras (1873), que frequentou por pouco tempo, mas que lhe permitiu conhecer, António da Silva Pinto, que se  veio a tornar no seu grande amigo.
A escrita de Cesário Verde era diferente, recorria a expressões claras e concretas e utilizava vocabulário expressivo. Usava frequentemente recursos estilísticos como a metáfora, a comparação e a sinestesia.
A sua atenção, voltava-se para o quotidiano e fazia contraste entre a cidade e o campo.
Em 1877, começa a sua luta contra a doença, acabando por falecer em 19 de julho de 1886, vítima de tuberculose.
Em vida, publicou poemas em vários jornais portugueses e apesar de ter tido o projeto de publicar um livro, nunca o fez. Um ano após a sua morte, o amigo Silva Pinto, acaba por publicar “O livro de Cesário Verde”.
Também a lembrar Cesário Verde, o músico Flak dos “Rádio Macau”, lançou em 2015 um novo álbum “Nada Escrito”, que apresenta parte de um texto do poeta – “Responso” na canção “Os Abutres“.

António Gedeão

António Gedeão

Em 1956 Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, na altura com 50 anos, publica, sob o pseudónimo de António Gedeão, o seu primeiro livro de poesia. Até aí era apenas conhecido como professor, embora o seu talento de pedagogo e de divulgador já se tivesse manifestado em obras publicadas nestes dois domínios. Apesar da sua obra poética ter aparecido tardiamente, Rómulo de Carvalho desde muito cedo revelou uma surpreendente veia poética. Fugindo ao sentimentalismo, a sua poesia tinge-se de terna ironia, de um aparente ceticismo, porque, no fundo, o poeta sabe, como poucos, “que o sonho comanda a vida/Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança”. Mesmo algo cético em relação às movimentações humanas, António Gedeão continua a acreditar numa realidade diferente e, em termos de esperança e de confiança, estes versos são dificilmente superáveis. A musicalização deste seu poema, Pedra filosofal, contribuiu para tornar mais conhecida a poesia de António Gedeão e tornou-se símbolo da resistência no Portugal de Salazar. Nasceu a 24 de novembro de 1906, tendo falecido a 19 de fevereiro de 1997.

António Ramos Rosa

antonio-ramos-rosa-webAntónio Vítor Ramos Rosa é um dos grandes poetas portugueses, também reconhecido pela sua pintura e críticas literárias. Nasce em Faro, a 17 de Outubro de 1924. Na década de 40 passa a residir em Lisboa.

Durante os anos 50 é diretor de várias revistas, como Árvore (que funda com outros escritores e que se torna uma referência na década), Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. É durante esse período que publica os seus primeiros poemas em revistas como Seara-Nova, Vértice e Cadernos do Meio-Dia. Em 1988, recebe o Prémio Fernando Pessoa. No ano seguinte, recebe o Grande Prémio de Poesia, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e, em 1990, o Grande Prémio Internacional de Poesia.